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Campo Grande, quarta-feira, 05 de agosto de 2026.

Goleiro Leopoldo, uma das estrelas que brilhou no gramado do Morenão, deve ter a lembrança perpetuada na história (Foto: Arquivo Pessoal)
Não que ele será implodido para ampla remodelação, quando na verdade, receberá uma pequena, mas necessária maquiagem e com ela, dar novo visual ao velho estádio Pedro Pedrossian, conhecido pelo país afora, como “Morenão”.
No atual momento, conforme o planejamento para o recebimento dessa “maquiagem”, o “Morenão” passa pela sua segunda troca de gramado e como se sabe, à medida em que vai recebendo as benfeitorias, parte da rica história, registrada naquele palco que já foi iluminado pelas estrelas de excelentes jogadores, vão sendo páginas viradas, ficando para trás e com isso, a juventude pode ficar por fora e sem ter conhecimento dos “monstros” que brilharam naquele palco.
Pois povo que esquece sua história permite que outros a reescrevam conforme lhes convém e isso não pode e nem deve acontecer.
Como se sabe, lembrar o passado, não que sejamos, como diz o dito popular, “museus”, mas ajuda a sociedade a proteger a verdadeira história, pois os ricos fatos não podem ser apagados ou reescritos, pois eles formam a base da memória coletiva, da verdade dos torcedores que frequentaram o “Santuário do Futebol de MS”, o Morenão!
Se no gramado do estádio Morenão, diversos jogadores brilharam intensamente e escreveram ricas histórias com letras Garamond, apontadas como as mais lindas para relatar as lindas recordações, tentarei relatar uma, entre centenas delas, registradas naquele que um dia foi o verdadeiro palco dos artistas da bola, mas que nesse caso, foi dividida em dois capítulos.

Goleiro Leopoldo (de boné), tem registrado com letras Garamond, a rica história vivida no gramado do Morenão e que precisa ser recordada sempre (Foto: Arquivo Pessoal)
Primeiro capítulo
Nessa história, o personagem principal nos dois capítulos, serão goleiro Leopoldo Oliveira de Souza, natural de Miranda, município localizado na região oeste de Mato Grosso do Sul, distante da Capital do Estado a pouco mais de 230 quilômetros.
Defendendo o Operário, com quem foi campeão estadual em 1.997, no dia 20 de janeiro, do ano seguinte, portanto, em 1.988, portanto há 28 anos, fato esse que poucos “jovens” podem saber,
O “Galo da Bandeirantes”, como o time era conhecido, enfrentou no dia 20 de janeiro daquele ano, a poderosíssima equipe do Flamengo, no famoso jogo de “ida” válido pela Copa do Brasil.
Comando pelo técnico Paulo Autuori, a delegação do Flamengo desembarcou em voo fretado, na terça-feira à noite, no Aeroporto Internacional Ueze Elias Zahran e claro, como normalmente fazem as delegações, os jogadores saem pelos portões laterais, para fugirem do assédio dos torcedores e mesmo a delegação tendo um ótimo elenco, confesso que não atraiu pelo menos no desembarque, muitos torcedores.
Elenco
Na época, dirigido pelo técnico Paulo Autuori, o Flamengo tinha de fato um “timaço!” Na defesa, Júnior Baiano, Athirson, Fabiano, no meio campo Zé Roberto, Palinha e a principal estrela da constelação: Romário.
A equipe carioca, era de fato um “timaço” e além da verdadeira “constelação” já estava em plena atividade no Campeonato Carioca e por isso, foi apontada como franca favorita no jogo, pois enfrentaria o Operário em janeiro, ainda estava na fase de formação, para o campeonato estadual de 1.998.
Casa cheia
Conforme os dados estatísticos, o maior público foi registrado no jogo Operário x Palmeiras, válido pelo Campeonato Brasileiro, em 1.977, como registro oficial de 38.122 pagantes, mas eu acredito que naquele jogo, contra o Flamengo, no dia 20 de janeiro de 1’.988, pra não ter ninguém, o Morenão tinha com certeza no mínimo 40 mil pessoas!
Além das equipes esportivas das rádios Campo-grandenses, o referido jogo foi transmitido pelas equipes de rádios de outras cidades do Estado, além das “potências” Globo, Tupi, Tamoios, Nacional, todas cariocas.
Na época, os cabos ainda usados e em campo, pelos repórteres e o técnico de som da Rádio Educação Rural, Carlos Vicente de Almeida (In Memoriam), conhecido e chamado por todos carinhosamente por “Carlinhos Jacaré”, se desdobrava para atender da melhor forma possível, os repórteres visitantes.
Quando o Flamengo entrou em campo, foi algo anormal! De forma uníssona, as com certeza, 40 mil pessoas, juntas gritaram: “Mengo!” “Mengo!” “Mengo!”, Grito esse que por certo ecoou em todo bairro Pioneiros, onde está localizado o referido estádio de futebol.
Bandana e gol 600
Em campo, os dois times e neles, todas as atenções voltadas para o jogador Romário, que na referida partida, usava uma bandana, um pedaço de tecido cortado de forma quadrada e amarrado na cabeça.
Árbitro do jogo, Paulo César de Oliveira, hoje comentarista de arbitragem da TV Globo, que teve uma péssima atuação, não marcando um claríssimo pênalti de Júnior Baiano, além de ter anulado um gol legitimo do Galo.
Leopoldo
A partir do momento em que o árbitro autoriza o início da partida, começa a emergir o principal jogador confronto: o goleiro Leopoldo!
Do alto do seu quase dois metros de altura, além da ótima envergadura, a colocação, reflexo, elasticidade e coragem, o goleiro Leopoldo “parou” o ataque do Flamengo, onde Romário tentava a marcação do gol número 600.
Naquele jogo, para os que não conheciam o goleiro Leopoldo, ele fez defesas impossíveis, mas para quem o conhecia, as mesmas integravam o repertório dos jogos disputados por ele.
Em um dos lances registrados no 2º tempo, no gol do hoje remodelado Auto Cine, Romário, no bico da pequena área, acertou um lindo voleio com o pé esquerdo e Leopoldo no mais puro reflexo e elasticidade, desviou o chute certeiro para escanteio.
Àquela altura, a imensa torcida, diante do gigantesco futebol mostrado pelo time da casa, já passava a gritar: “Galo!” “Galo!” “Galo!”, na época dirigido pelo bom técnico, ex-jogador Amarildo.
Fim de jogo e nele o registro do empate sem gols, todos os méritos para o goleiro Leopoldo, apontado como o melhor em campo e no outro lado, o jogador Romário, ainda com a bandana, parabenizou a inesquecível participação do goleiro alvinegro.
Maracanã
Conforme o antigo regulamento da Copa do Brasil, os jogos terminados empatados, por qualquer placar, teriam segundo jogo desta feita na casa do time que no primeiro jogo, visitou o adversário.
Nesse caso especifico, no Maracanã, onde a partida foi disputada no dia 6 de fevereiro.
Desfalques
Naquele jogo, o Flamengo não pode contar com os jogadores Junior Baiano e Romário, que já integravam a seleção brasileira, visando a Copa do Mundo, daquele ano, disputada na França.
Com a ausência do ataque do Flamengo, Leopoldo sabia que não sofreria o tão sonhado Gol de Número 600, do “baixinho” Romário.
Incidente
O jogo de volta foi marcado pelo incidente e que por pouco não se transformou em uma terrível tragédia no futebol brasileiro foi assistindo por pouco mais de 1.800 pessoas no Maracanã.
Ainda no 1º tempo, o choque involuntário entre o jogador Cleisson do Flamengo e o goleiro Leopoldo, do Operário.
O lance gerou forte tensão no Maracanã, tanto que que precisou da assistência médica dos dois profissionais do Flamengo, os médicos José Fernando e José Luiz Rocco.
Por volta dos 43 minutos do 1º tempo, o jogador Palinha, fez um lindo lançamento para Cleisson que ficou na “cara do gol” guarnecido por Leopoldo.

Diante da situação do goleiro Leopoldo, a apreensão dos jogadores do Operário, diante da triste situação (Foto:Google)
No lance, mostrando coragem, arrojo e muito reflexo, Leopoldo deixou o gol para fazer o “abafa” e evitar o gol do time rubro-negro.
Susto
No entanto, o lance causou um grande susto e momentos de muita tensão no gramado do Maracanã.
Pois ao receber o lançamento, Cleisson deu o arranque e mesmo empregando a força e velocidade no lance, ele teve tempo exato para ver que o goleiro Leopoldo fechava o ângulo e no puro reflexo, o flamenguista tentou pular, para desviar do choque.
Foi justamente no momento em que ele tentou pular pra desviar o choque, o joelho da perna direita, acabou atingindo em cheio o rosto do goleiro Leopoldo que devido ao forte impacto e de forma instantânea, caiu desmaiado e sangrando muito pelo nariz e pela boca.
Diante da triste cena, os jogadores se desesperaram e de imediato solicitaram a entra dos médicos em campo.
A delegação do Operário não tinha médico e com isso, o massagista Chicão (In Memoriam), correu para socorrer o goleiro Leopoldo, que ainda estava totalmente desacordado e sangrando muito.
Com isso, os médicos do Flamengo, José Fernando e Luiz Rocco, entraram em campo para os primeiros procedimentos necessários e ideias.
Estacando o sangue e coma recuperação do goleiro, os médicos chamaram a ambulância, que transportou o mesmo ao Hospital São Lucas, próximo ao Maracanã.
No primeiro momento, o médico José Fernando disse que Leopoldo estava totalmente desacordado, com o pulso baixo, com deficiência respiratória e ainda sangrando muito pelo nariz e pela boca e logo após estancar os sangramentos, aos poucos o goleiro foi dando sinais vitais, daí a necessidade de encaminhar o mesmo para o nosocômio acima mencionado, pois segundo o médico, o estado do goleiro Leopoldo, dava indicativo de concussão cerebral com possível trauma encefálico.
Transportado para o Hospital São Lucas, onde ficou em observação durante 24 horas, pois no dia seguinte o mesmo foi liberado, Leopoldo voltou com a delegação do Operário que além do susto, amargou a desclassificação pelo placar de 4 x 0, pois ao longo do jogo, além da crise emocional vivida pelo time devido ao incidente registrado com o goleiro Leopoldo, o time teve ainda mais dois jogadores expulsos.
Comentários
Diante da concussão sofrida, que ocasionou o desmaio de Leopoldo, surgiram alguns comentários e entre eles, que o mesmo teria engolido a “perereca”, uma prótese dentária que o goleiro teria engolido com o choque, fato esse que teria causando a parada cardíaca. Tudo mentira!
“Na verdade quebrou um dente. Eu nunca tive dentadura e sim uma prótese, mas não engoli nada. Falaram que o doutor (José Fernando) tirou (prótese), mas disso eu não lembro”, disse Leopoldo, que hoje ocupada o cargo de coordenador de esporte, e reside na cidade de Rochedo, localizada na microrregião de Campo Grande, de onde está distante a 74 quilômetros.
Leopoldo também não esquece de comemorar o fato de não ter sofrido o seiscentésimos gol de Romário.
“Mas eu estou vivo pelas benções do Senhor, pois fiquei três meses em tratamento”, disse.
Após tratamento, Leopoldo confessa que ficou meio “lelé” que na linguagem popular significa que ficou meio “avoada” e recorda o momento em que teve que reaprender alguma coisa.
O Medo!
“Fiquei meio ‘lelé’ e quando tentei voltar a jogar (futebol), não sabia nem cair (nos lances), tive que reaprender tudo. Mas quando pensei em jogar de novo, confesso que tive medo e por isso, decidi parar de vez”, recordou!
Parou, mas voltaria!
Guiado pelo sentimento do medo, o goleiro Leopoldo pode ter encerrado a carreira de forma precoce, pois mesmo tendo revelado, mas já superada tal comoção e sem sequelas, ele admite que nos dias de hoje, voltaria a jogar e justifica os motivos.
“Voltaria sim (jogar), pois é a minha paixão! É um sonho que eu consegui realizar”, afirmou e revelou ainda que, através da modalidade, ele pode conhecer outros países, vários lugares, outros estados, novas culturas, tudo isso através do futebol que ainda me proporcionou também, ter conhecido muitas pessoas importantes na minha vida. Isso aconteceu há 26 anos e até hoje somos lembrando e convidado para os mais diversos tipos de eventos, fato esse que me deixa extremamente feliz e por tudo isso, sou imensamente grato ao futebol, mesmo com o susto, ele (futebol) me proporcionou tudo isso”, afirmou.
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