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Campo Grande, segunda-feira, 31 de agosto de 2026.

Um dos vagões do trem da NOB que servia de restaurante, era igual aos da 1ª classe, tal como da foto (Foto: Google)
Caso, na década de 1.980 existisse uma entidade tal como a que foi criada nesta sexta-feira (28) de agosto, a Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de Mato Grosso do Sul (Arfoc-MS), que pudesse “congelar as imagens feitas naquela década, especificamente”, com certeza entre elas estariam as fotos feitas pelo repórter fotográfico Denílson Nantes, conhecido e chamado por todos como “Secreta”.
No entanto, como diz o adágio popular, “antes tarde do que nunca” essa associação recém criada, com certeza, a partir de agora, preservara as lindas imagens que por certo serão eternizadas pelos profissionais que empunham com muito profissionalismo, uma câmera fotográfica.
Fato
A década era de 1.980, o ano especificamente, devido a avançada idade já não me lembro, afinal ao longo de 72 anos de feliz existências, registrei na memória, milhares de fatos e que hoje, foram desgastados pelo tempo.
Na época, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), tinha o Trem de Passageiro que ainda fazia o percurso ou a linha Campo Grande – Corumbá e vice-versa.
As duas locomotivas deixavam as Estações Ferroviárias, às 21h, tanto em Corumbá bem como na Capital de MS.
Confesso também que não sei em qual estação, ao longo do trajeto, que existia a placa indicado PN – Passagem de Nível – onde o agente ferroviário de plantão, acionava uma alavanca existente e a mesma mudava o direcionamento dos trilhos, para possibilitar o desvio das locomotivas que seguiam em sentidos opostos.
Até ai tudo bem. Como se sabe, viajar nos trens noturnos para Corumbá, era uma festa e de cara, os passageiros, ocupavam as mesas do restaurantes onde além da cerveja Antártica “fria”, não podiam ficar sem comer o tradicionalíssimo “Bife à Cavalo”, acompanhado de uma porção de arroz, ovo frito e pão. Uma delícia!
Quem não experimentasse esse prato típico do trem da NOB, claro que não tinha conhecido as emoções de uma viagem noturno pelo pantanal de Mato Grosso do Sul, onde nas madrugadas, eram comuns, avistar os mais diversos animais da rica fauna do cerrado.
Apenas e tão somente um vagão servia de restaurante para os passageiros e nele, deveriam ter no máximo uns talvez 12 jogos de mesas e cadeiras, sendo que estas não podiam ficar no corredor, pois atrapalhava o fluxo das pessoas, que normalmente não paravam e faziam dos vagos uma verdadeira passarela.
Tendo apenas um vagão como restaurante, que era locado pelo grupo Amantini, de Bauru-SP, a cozinha do mesmo era extremamente pequena, super pequena mesmo e nela mal cabia o cozinheiro que devia fazer malabarismo para cozinhas as iguarias e dar conta aos pedidos, talvez uns 50 por ai.
Na mesma época, ainda existia também o Jornal Diário da Serra, do Grupo Correio Brasiliense, que tal como a NOB, também acabou sendo desativado.
A redação do referido jornal, começou a receber com muita fluxo, as denúncias quanto ao péssimo estado, estado deplorável da cozinha que atendia os passageiros no restaurante do Trem Noturno da NOB.
Diante de tantas denúncias, durante a reunião de pauta, foi definido que o jornalistas Jorge Franco (In Memoriam) e o repórter fotográfico, Denílson Nantes, “Secreta”, seriam os responsáveis pela elaboração da matérias e trabalhos fotográficos.
Definidos, ambos foram à Estação Ferroviária, acompanhado pelo colega, o motorista Evaldo José, no famoso fusca da redação do DS “Coração de Mãe”.
No local, os jornalistas se identificaram e tiveram a autorização para produzir tal reportagem.
Com a liberação, eles foram aos vagões que à noite, seguiriam para Corumbá, onde chegavam na manhã do dia seguinte, por volta das 7h.
À medida em que eles andavam pelos vagões, chegaram ao local das inúmeras denúncias que gerou a referida pauta: “O vagão do restaurante!”
O fotógrafo “Secreta”, – apelido esse colocado pelo também fotógrafo Narciso Silva – que pelo fato de o mesmo ainda ser “aprendiz”, mas com uma visão incrível, o chamava de “secretário” e a turma da redação resolveu diminuir e passou a chama-lo de “Secreta”, usando uma máquina Nikon, levando no ombro a bolsa onde tinham os rolos de filmes, sendo alguns para serem usados e outros vazios, ficando apenas os carretéis.
Com muita visão “Secreta” foi logo para a cozinha, o pivô das denúncias.
Na cozinha, isso por volta das 15h, de fato (sem nenhuma redundância), o “trem era feio. Mas muito feio mesmo!”
Muitas panelas ainda por lavar, a frigideira, onde era passado o delicioso “bife à cavalo” e a outra, onde possivelmente os ovos eram fitados, tudo sujo!
Além disso, pelas paredes do vagão que servia de cozinha, baratas, talvez centenas delas, alguns ratos, de fato quem visse o antes, com certeza não degustaria com tanta vontade a comida mais tradicional do Trem Noturno de Passageiros da linha NOB, ligando Campo Grande à Corumbá.
Enquanto o jornalista “Jorginho” (Jorge Franco), fazia as devidas anotações, “Secreta” registrava tudo com a sua máquina fotográfica e até ai tudo bem.
Mas pelo fato deles estarem no restaurante do trem, a dupla acabou sendo denunciada por algum funcionário da NOB que prontamente acionou os seguranças da referida empresa, que de imediato foram para o local.
Chegando à Estação, a equipe de segurança foi indicada onde estavam os jornalistas e os mesmos foram até o restaurante, onde encontraram a dupla, fazendo o serviço jornalístico.
Mantendo a calma e o comportamento durante a abordagem, mas não se sabe se pelo fato de os dois profissionais pertencem à um jornal, no caso do Diário da Serra, de forma educada, eles foram convidados a deixar o local.
Jogada de mestre
Mas antes da saída da dupla, do restaurante, um dos segurança solicitou ao fotografo “Secreta”, a máquina fotográfica.
De imediato, “Secreta”, se recusou a atender tal pedido, falando que a máquina não era dele e que a mesma pertencia ao jornal.
Sabiamente e astuto, diante da negativa em entregar a máquina, o tratamento educado demonstrado pelos seguranças da NOB, já começava a mudar de tom, sendo que um dos integrantes, arrumou o quepe, o outro, já “ajeitou” o cinturão, colocando os dois dedos polegares no mesmo, pra “impor”, digamos “respeito”.
Diante disso, o “Secreta” fez uma proposta aos seguranças da NOB, dizendo que a máquina, ele não podia entregar, mas o filme, ele entregava de boa, pra evitar possíveis confusão.
Dito que entregaria o filme, onde havia sido registrados os ratos, baratas, vasilhas sujas entre outros, o segurança, talvez o “chefe” da turma prontamente aceitou.
No entanto, “Secreta” disse ao mesmo que, o filme onde estavam as fotos registradas, não poderia ser retirado da máquina, ali na claridade, pois o mesmo ficaria velado, que na linguagem dos fotógrafos, significa que a exposição do mesmo à luz queimaria a película e estragaria as imagines e assim, não teria como a administração ver as mesmas.
Dito isso, ele pediu ao segurança, para ir a um dos banheiros da composição, onde no escuro, tiraria o filme.
Proposta feita e aceita e ele foi ao banheiro!
Chegando ao banheiro, ele usou toda a astúcia, toda malandragem no bom sentido!
Ao invés de tirar o filme da máquina, ele pegou na bolsa, um carretel e entregou o mesmo ao segurança, orientando o mesmo que só tirasse do bolso, quando chegasse igualmente a um local escuro.
Feito isso, a dupla foi convidada a deixar o local e então, eles voltaram ao “fusca” e foram para a redação.
Claro que no caminho, o “Secreta” contou ao “Jorginho” o que ele havia feito e claro que ao lado do motorista Evaldo, o trio se desmanchou em risos.
Chegando à redação, “Secreta” foi para o Laboratório revelar os filmes, Jorginho fez a matéria e na manhã do dia seguinte, o Jornal Diário da Serra, estampou em uma página inteira, a “podridão” que dominava a cozinha do vagão restaurante do trem da NOB, através das revelações da triste realidade até então nunca mostrada aos passageiros.
Caso naquela época já tivesse sido fundada a Arfoc-MS, com certeza as imagens feitas pelo repórter fotográfico Denílson Nantes, “Secreta”, tal como disse o outro repórter fotográfico Raul Rodrigues (Im Memoriam), certamente as emoções vividas naquela tarde, seria também congeladas e expostas aos olhos de todos, do brilhante trabalho feito por um profissional que ao empunhar a máquina fotográfica, faz com denodo, vontade, determinação e muito conhecimento.
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